
Para mim, os Beach Boys são, como banda, tão incontestáveis como Elvis o é como solista masculino. Considero-os a uma distância de anos-luz em relação a todas as restantes bandas, antigas ou modernas.
Dois motivos principais constroem a base desta minha opinião: o incrível talento criador de Brian Wilson (muito bem coadjuvado pelo seu primo Mike Love), e a opção que eles fizeram desde o primeiro dia de utilizar harmonias vocais de tipo polifónico, quase sempre muitíssimo bem elaboradas e eximiamente executadas.
As músicas dos Beach Boys (estou a generalizar, é claro) tocam uma corda no meu coração que dificilmente outros grupos conseguem. Há uma auréola de sonho, algo de angélico, em volta das suas melodias que constitui uma constante ao longo da grande maioria das suas composições. Mesmo quando interpretam criações de outrem, eles conseguem imprimir esse selo de qualidade que dá uma fantástica uniformidade ao seu repertório.
Por isso, destacados no topo das minhas preferências, os Beach Boys ocupam uma posição firme e inabalável. Em segundo lugar ex aequo, coloco duas bandas: os Moody Blues e os Byrds. Estes últimos tiveram, infelizmente, uma existência fugaz, mas enquanto duraram pontificaram. Os Moodies, tal como os Beach Boys, continuam até hoje a premiar-nos com o seu formidável talento.
Então e os Beatles? – perguntará o leitor. Correndo o risco de ser esfolado vivo, ponho-os na mesma cesta de inúmeras outras bandas, também excelentes, como os Rolling Stones, os Led Zepellin, os Who, os Status Quo, os Pink Floyd, etc. Eu estava a morar em Londres (Radnor Walk, Kings Road, Chelsea) quando foram editados os primeiros singles dos Beatles. Sabem qual foi a minha reação? Detestei. Achei-os desafinados, agressivos, “desarmónicos”. E mantive essa opinião durante bastante tempo. Só comecei a gostar do grupo quando surgiram músicas como “Michèlle”, “Girl”, “All my loving”, etc. Até lá, das bandas britânicas, a minha preferência ia para Gerry and the Pacemakers, Brian Poole and the Tremeloes, Freddy and the Dreamers, Manfred Mann, etc, cujos sucessos dançava incessantemente no “Café des Artistes”, em South Kensington, boîte que frequentava dia sim, dia sim.
Conforme se pode verificar pela imagem acima, tive o privilégio de assistir a uma apresentação ao vivo da minha banda preferida, The Beach Boys, no passado dia 19 de Agosto de 2007. O espectáculo ocorreu no Wolf Trap (Foundation for the Performing Arts), um espaço cultural situado em Vienna, na Virgínia. USA. Confesso que ia preparado para ficar já satisfeito com algo mesmo que fosse uma sombra do som a que estava habituado nos discos dos Beach Boys. Isso já seria o suficiente para matar a minha sede de quase 50 anos de fã. Até porque tinha visto os vídeos de algumas apresentações ao vivo do Brian Wilson – que deixavam muito a desejar.
O que aconteceu, para minha enorme e saborosa surpresa foi, porém, exactamente o contrário. A banda está amadurecida, melhorada, enriquecida com músicos de muito melhor qualidade que os irmãos Wilson, e as suas interpretações durante 3 horas de show revivendo os maiores sucessos do conjunto, ultrapassam a qualidade dos registos discográficos. E esta, hein?! Sabiamente dirigida pela dupla Mike Love – Al Jardine, a banda, agora composta por 8 membros, mantém a assistência ao rubro durante a totalidade do concerto. A juventude dos anos 60, devidamente acompanhada de filhos e netos, dançou, pulou e sonhou a tarde inteira (fui à sessão das 14 horas), transformando o acontecimento num verdadeiro carnaval de alegria e prazer. Contagiante, rejuvenescedor, inebriante, transcendente, “religioso”, inesquecível!
O Brian Wilson nem apareceu fisicamente. Aliás, há décadas que ele tem um comportamento errático e receia enfrentar o público. Mas nós perdoamos-lhe tudo isso em troca da sua presença espiritual patente nas eternas melodias e harmonias que pariu e que o público desfruta com apetite insaciável.
Os Beach Boys estão em permanente tournée mundial, fazendo, em média, 170 apresentações por ano – uma média invejável. Consultem o calendário no website deles (
http://www.thebeachboys.com/) e escolham a data e local do concerto que pretendem ver. Até dia 20 de Abril eles estão a apresentar-se na Grã Bretanha, aproveitem: It’s the experience of a lifetime!